Condições crônicas na infância: crianças não podem estar sozinhas nessa luta
Crianças em idade escolar com doenças crônicas precisam aprender a lidar com a própria condição de saúde. Mas a escola e, principalmente, os pais, precisam dar condições para que elas se acostumem com suas realidades até que consigam ter total autonomia na ingestão de seus remédios.
A lista de doenças crônicas pode ser extensa e inclui tanto condições de saúde física – como a diabetes, a hipertensão infantil, cefaleia, asma crônica e a epilepsia – como aquelas relacionadas à saúde mental – depressão, ansiedade e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade . Todas elas, quando desenvolvidas na infância – especialmente em crianças com menos de 9 anos (aquelas no ensino fundamental), tendem a ter maior dificuldade de se organizar para tomar as medicações – precisam de especial atenção da escola e dos pais
“A criança, de um modo geral, terá muita dificuldade para ser responsável pela administração do horário em que deve tomar o remédio, pois no ambiente escolar ela terá tantos estímulos e curiosidades ocorrendo em volta de si que a atenção para esta necessidade de tomar a medicação poderá ser oscilante” explica Alessandra Wajnsztejn, neuropsicóloga e psicopedagoga. “Algumas crianças por volta dos 10 anos já conseguem relacionar, por exemplo, que é a hora do recreio e, portanto, é a hora de tomar a medicação mas isso dependerá muito dos processos atencionais, de maturidade e das características de independência que cada criança possui de forma singular. Em casa ou quando a criança vai viajar, é fundamental separar, por exemplo, os comprimidos em uma caixinha que tenha divisórias relacionando os dias da semana”, completa.
Nesses casos, diz Mariana Fazio, farmacêutica e diretora do site educativo Remédio Certo, é importante que os professores e educadores estejam atentos e cientes das necessidades específicas de cada aluno. “A escola pode e deve ser agente de prevenção”, afirma. E apesar dessas condições não serem incomuns, nem todas as escolas estão preparadas para isso, aponta Sylvio Renan, médico pediatra.
Exclusão patológica
Renan aponta que esse despreparo pode levar as crianças à chamada “exclusão patológica”, em que o isolamento social e o sentimento de exclusão por causa da doença impactam negativamente a criança, podendo levar ao desenvolvimento de sentimentos depressivos, por exemplo. “Nesse caso são as escolas, que não têm uma pessoa capacitada para lidar com o problema, que acabam causando esse sofrimento nas crianças. A presença e o apoio de um adulto são importantes para elas”, diz.
“A escola é o espaço em que a criança vivenciará sua socialização em sua plenitude, é neste espaço que o conhecimento, que as diferenças e as potencialidades irão ficar evidenciadas para cada criança”, afirma Wajnsztejn. Para a especialista, uma criança que necessita usar medicação no horário escolar precisará ter uma aliança muito positiva e transparente entre o coordenador pedagógico, orientador educacional, família, aluno, no sentido de que todas estas pessoas envolvidas possam entender o motivo e a importância de dar a medicação, mas sem excluí-las.
Pais são importantes no processo, mas podem se sentir sobrecarregados
Mas o maior apoio, nesses casos, deve vir de casa. O diálogo entre os pais e a criança é fundamental. Os pais devem ajustar seu discurso conforme a idade da criança. Outra coisa: não se deve pensar que o impacto de uma doença crônica atinge somente as crianças.
“Essa situação é difícil para ambos. Os pais passam a ter uma responsabilidade ainda maior sobre os filhos. Esta situação pode produzir um impacto na qualidade de vida da criança e de seus pais. As famílias, nestes casos, geralmente necessitam de alívio de ansiedade, muita informação e apoio, a fim de minimizar os efeitos negativos sobre eles”, explica Mariana.
Renan aponta que os pais também respondem emocionalmente a essa situação. Isso pode levar a conflitos dentro do relacionamento, transtornos depressivos e à elevação do estresse. Nesses casos, é importante o acompanhamento psicológico para toda a família.
“A única coisa que se deve evitar é esconder o problema da criança. Não é preciso explicar tudo detalhadamente, pois cada idade tem um limite para o entendimento da situação. Mas contar a verdade, dizer que o filho tem uma determinada doença, que é para o resto da vida e que é preciso estar atento aos remédios é uma obrigação dos pais”, alerta Renan.
Mariana concorda e também indica que é importante que os pais e cuidadores da criança, ao administrar um medicamento, expliquem sua importância para o tratamento da doença, independentemente de sua idade. “Evitem falar sobre medicamentos como ‘sucos’ ou ‘balas’. É preciso explicar que o medicamento foi indicado pelo médico pediatra e que ele orientou os horários que ele precisa ser administrado. É simples”, completa.
Quando a criança inicia o uso medicamentoso e percebe as possibilidades de benefício como, por exemplo, a diminuição das crises convulsivas – no caso daquelas crianças com epilepsia – estará certamente mais aberta e atenta para a organização quanto ao horário ou período que deva tomar a medicação, explica Wajnsztejn.
E até que elas tenham idade para ter autonomia nos cuidados com a própria condição, o diálogo entre todos os envolvidos é a melhor maneira de garantir a segurança desses tratamentos. “Uma boa ideia, que acompanho há algum tempo, são os grupos formados na internet por pais e mães de alunos que têm condições crônicas. Esses grupos ajudam tanto na forma de apoio emocional como na troca de informações e, principalmente, cria uma coletividade que ajuda a cuidar para que o ambiente escolar seja o mais adequado possível. Além disso, eles estão atentos uns aos outros e, em caso de uma emergência médica, podem ajudar a contornar o problema de forma mais eficiente”, sugere Renan, que lembra ainda que um protocolo da Anvisa pode, nos próximos meses, oficializar a criação de enfermarias nas escolas brasileiras.
FONTE: "O que eu tenho?"